Diariamente ouvimos que a prática de Yoga nos traz equilíbrio. Não é uma idéia equivocada, mas gostaria de analisá-la com cuidado observando qual é a experiência prática.
Assim como as posturas físicas abrem espaço entre as vértebras e articulações, a prática de Yoga como um todo abre espaço no campo mental, tornando o fluxo de pensamentos mais organizado. A vida de Yoga, que se estende além da prática de āsanas e prānāyāmas, é pautada no estudo e compreensão de si mesmo. Assim, o auto-estudo combinado com as práticas tornam o indivíduo mais presente e centrado reduzindo as reações automáticas significativamente. Essa é uma conquista que gradualmente conseguimos observar, uma mudança real e possível e podemos interpretá-la como a conquista de um equilíbrio. Entretanto quando levamos esses conceitos ao seu extremo surge o problema.
Inicialmente vou lançar mão da medicina ayurvedica, a medicina com origem indiana, apenas para exemplificar já que não se trata da minha área de atuação. Dentro do ayurveda temos 3 doshas que aqui chamarei de biótipos, denominados vata, pitta e kapha, sem me aprofundar nas classificações. Predomina em cada indivíduo um ou dois desses biótipos, embora os três estejam sempre presentes. Essa relação entre os 3 doshas com aquele(s) que predomina(m) varia de acordo com diversos fatores como a idade, período da vida, a estação do ano, entre outros. Ou seja, existe um desequilíbrio natural do corpo diariamente e a todo instante onde 1 ou 2 biótipos se manifestam além dos demais. A manutenção da saúde se dá através da observação de si mesmo, corpo, mente e emoções a cada instante, realizando ações que compensem esse desequilíbrio natural. E assim o nosso corpo oscila entre equilíbrios e desequilíbrios constantes. Essa mudança de percepção sobre o equilíbrio na saúde é importante para romper com uma idéia muito difundida de que praticantes de Yoga e grandes mestres não adoecem.
Esse exemplo apenas ilustra o que pretendo abordar aqui. Partindo para um aspecto mais sutil, convido à reflexão sobre o equilíbrio em nossa relação conosco e com os demais, com toda a carga emocional envolvida. Nesse momento é importante perceber qual é o limite da nossa atuação no mundo. Passamos todo o tempo tomando decisões: decidimos que horas vamos acordar, como vamos para o trabalho, o que e como iremos nos comunicar, etc. Isso tudo pode nos dar uma falsa idéia de controle. Estamos o tempo todo nos relacionando com algo ou alguém, que representa todo o Universo. E ao mesmo tempo não temos nenhum controle sobre o que vamos receber nessa relação.
Isso pode ser muito evidente pra nós se pararmos um momento para analisar: não temos controle sobre o resultado de uma ação. Entretanto a falta de controle vai um pouco além. Não temos controle sobre os próprios pensamentos, e muito menos sobre as emoções e sentimentos que derivam deles. Assim como os fenômenos da natureza simplesmente se manifestam, as emoções simplesmente vêm à tona. Como trombas d’água em dias de chuva, sentimos raiva, tristeza, angústia, sem conseguir contrariar a força da natureza. Se a idéia que trazemos de equilíbrio é que devemos acabar com a raiva, a tristeza, a depressão, ou qualquer tipo de pensamento ou se imaginamos um ser humano equilibrado como aquele que fala sempre em tom de voz ameno, com palavras doces sem se alterar, é hora de repensar esse conceito. Não queremos nos tornar seres humanos apáticos, frios e insensíveis. Queremos nos emocionar, sentir, viver! Estar em equilíbrio é estar mais presente frente às emoções e vivê-las por completo. Carregamos conosco tendências emocionais que não devem ser eliminadas. Aprendemos o tempo todo a escondê-las, mas para avançar no conhecimento de si mesmo é essencial trazê-las com toda a sua intensidade à tona, e aprender a administrá-las sem vitimizar a si mesmo e aos demais O fato é que na maior parte do tempo convivemos com elas sem saber como se expressar, e esse é um aprendizado que só pode ser realizado vivendo as situações e acolhendo nossas imperfeições. Se levarmos ao pé da letra a noção de equilíbrio, em que devemos estar o tempo todo conscientes de nossas ações, sem nos alterar, certamente vamos falhar, abrindo espaço para a culpa e a autopunição. O desequilíbrio é natural e só nos cabe vê-lo com esse olhar.
Para viver uma vida de Yoga é importante alinhar as ações de forma a colaborar com o ambiente ao redor, reduzindo a dor e se possível colaborando para o bem estar dos demais, ou seja, agir de acordo com o dharma. Entretanto, essa não é a finalidade do Yoga. Vivemos a realizar ações com base em nossa bagagem emocional, agindo muitas vezes de forma consciente, porém muitas vezes ainda carregada de emoções e dores tão profundas que são impossíveis de se ver. É óbvio que queremos ter cada vez mais clareza nas ações, e, portanto, mais equilíbrio. Entretanto, a busca por um corpo e uma mente totalmente equilibrados pode tornar o yogue mais obcecado pelas práticas do que pelo empenho na mudança de visão, dando origem a dor sempre que constatado a limitação do corpo-mente, tornando ainda mais difícil o contato consigo.
O que quero deixar claro é que buscamos sim um equilíbrio relativo que nos ajude a caminhar na direção dessa mudança de visão que é o tema do Yoga. Mas é muito importante entender que esse equilíbrio, tal qual todo o aparato que carregamos nessa jornada, é limitado, sujeito a mudanças. Somos todos sujeitos à desequilíbrios e essa é a beleza da vida: simplesmente viver, surfando na instabilidade e contemplando a paisagem que muda a todo instante.
Boas práticas!


